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Acorda contrariada e aturdida. O olhar desorientado percorre a sala escurecida, ainda mergulhada no breu da noite. Os pés gelados pousam no encosto de um sofá, nas suas costas sente um calorzinho bom e aconchegante. A fonte de calor é macia e mexe-se suavemente encostada a si. Pelo vidro da janela, logo acima da sua cabeça, escorre a luz cálida do candeeiro da rua, numa perspectiva que não lhe é familiar.

Demora alguns instantes a compreender onde se encontra: na casa pequenina da avó Joana. Outra vez. Fugiram a meio da noite, esbaforidas e amedrontadas, pela rua fora, com os mais pequenos de braçado, em passo apressado, a respiração ofegante do cansaço e do medo, como malfeitoras a monte. Outra vez.

Da cozinha volteiam as palavras abafadas mas veementes da avó, o choro empastelado e fanhoso da mãe, o tilintar metálico de uma colher a bater distraidamente na chávena de chá. Mexe-se devagar para ver as horas no telemóvel e a irmã pequenita aconchega-se mais a ela, no remanso do sono. Levanta-se com delicadeza e veste em silêncio as roupas do dia anterior, penduradas nas costas de uma cadeira.

Pela porta entreaberta, observa em segredo as mulheres na cozinha. A mãe, sentada à mesa, embala o irmão bebé, que dorme um sono agitado, entrecortado de soluços. Chora baixinho e vai debitando queixumes ininteligíveis, numa articulação tolhida pela turgência ensanguentada dos lábios e pelo inchaço do nariz. A avó ralha, de pé, encostada ao fogão, a mão furiosa a rodopiar a colher no chá fumegante. “Isto não é vida, minha filha, estou fartinha do to dizer”.

A rapariga encosta-se à parede, escondida na obscuridade da madrugada. Percorre a sala com o olhar, tentando vislumbrar a mochila e – já agora – uma saída para o novelo emaranhado que é a sua vida. Gostaria de comer uma torrada, derreter o gelo dos pés com uma chávena de chá quentinho, mas não tem coragem de entrar na cozinha. Não lhe apetece enfrentar agora o rosto novamente desfigurado da mãe, não quer sentir o olhar piedoso e triste da avó.

Fecha a porta devagarinho e sai para o ar frio e cinzento da madrugada. Caminha alguns metros na direcção da paragem e estanca quando se lembra que não tem dinheiro para o autocarro. Também não tem senhas, nem o cartão da escola para almoçar, nem os livros para as aulas do dia. Todas as coisas de que precisa estão na sua casa, esquecidas na ânsia de escapar à sanha animalesca do pai. Voltar atrás não é uma opção, decide, enquanto corre o fecho do casaco até ao queixo e apressa o passo, que o caminho é longo.

Chega à escola esbaforida e encharcada pela chuva que teimou em cair, logo naquela manhã, a inaugurar o Outono. A aula já começou há muito. O professor suspende as palavras quando ela entra e todos os olhares voam para a sua figura esgazeada e patética. “Outra vez atrasada, não é verdade?”, reclama o professor. Oferece-lhe um “desculpe” sumido e distraído de quem tem mais em que pensar.

“Isto assim não pode continuar”, torna o professor. “já tens várias faltas de atraso e de material, não é verdade? E agora, pelos vistos, vais ter mais! Onde está o teu livro? Fizeste os trabalhos de casa? Anda, tira os materiais e começa a trabalhar!” A rapariga cerra os dentes com força para não deixar passar a zanga. As narinas dilatam no esforço de tentar controlar a respiração. “Olha-me este agora!”, remorde entre dentes. O professor não entendeu, mas os colegas das mesas mais próximas ouviram o seu comentário e olham-na, num misto de expectativa e reprovação. “O que foi que disseste?”, interroga o professor. “Responde-me”, insiste, perante o silêncio dela. “E olha para mim, que estou a falar contigo! Estás a ouvir? Onde está o teu livro? E o caderno? Não trazes nenhum material?”

A cada nova interpelação do professor, a raiva e a frustração atravancam-lhe a garganta como uma represa prestes a rebentar. “Ó pá, não me chateie!” dispara, com a fúria irracional de um animal acossado. O professor revida, arreliado e sentido: “Mas isso são modos? É essa a educação que a tua família te dá?”

A menção da palavra ‘família’ é um fósforo aceso no cenário de guerrilha que foi a sua noite, no carrocel desgovernado das suas emoções. “Não lhe admito que fale da minha família!”, grita-lhe com o fôlego que ainda lhe sobra. Levanta-se resoluta e ofendida e caminha para a saída como rainha no exílio. “Bardamerda”, foi a última coisa que disse, antes de bater com a porta com quanta força tinha.

 

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publicado às 19:43

Velhice

por MC, em 18.05.16

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A velhice é má. Não interessa quão bonitas são as florzinhas nos graciosos vestidos lilases das velhinhas dos anúncios das fraldas descartáveis, a velhice é má. Não importa quão viçosa é a relva dos jardins onde passeiam, airosos, os velhinhos que tomam as gotas da artrite, a velhice é do piorio. A velhice cheira a ranço, a marasmo e a urina. A velhice esvazia-nos os heróis, quebra-os, esboroa-lhes maldosamente os alicerces e larga-os à deriva numa barcaça desnorteada. Quedam-se por aí, murchos e enrugados como balões em fim de festa, a embater de manso pelas paredes. Não sabemos verdadeiramente sobre impotência e frustração senão quando nos envelhecem os amores.

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publicado às 23:26

Chiça

por MC, em 20.02.16

No mesmo dia Harper Lee e Umberto Eco? Porra. 

 

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(Ilustração de Maria Giron)

 

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publicado às 15:53

João (2)

por MC, em 14.02.16

 

Ao almoço de Domingo, a ampla cozinha do centro de acolhimento fervilha de mãos ajudantes. Na mesa, vão-se alinhando os pratos e copos de plástico colorido, como manjericos enfileirados na banca do arraial. Depois chegam os jarros de sumo e os cestos do pão, o último volteio da colher no tacho do arroz. Na televisão, uma senhora de voz nasalada diz coisas acerca da adopção por casais gay, numa dissertação morna, alternada com segmentos de reportagem na via pública, onde os cidadãos são chamados a dar a sua opinião.

Os garotos já estão todos sentados à mesa e a dona Alice percebe a atenção velada dos mais crescidos ao tema em apreço. Há cotoveladas e risotas cada vez que a palavra ‘gay’ é proferida, as miúdas mais velhas cochicham graçolas, os mais pequenos, alheados, depenicam no pão.

“Ó João”, diz a mais velha das adolescentes, “é desta que vais ser adoptado!”

O João olha para aquela irmã de armas temporária que a vida lhe pôs ao caminho com uma expressão que tenta emoldurar de normalidade, para que ninguém lhe perceba o coração na boca. “Achas?”- pergunta-lhe no tom tranquilo que tem treinado para qualquer eventualidade.

“O João vai ser adoptado?”, pergunta uma pequenita de franja demasiado curta e desnivelada, resultado evidente de um corte artístico de sua autoria, olhando-o com enternecimento.

“Pode ser que sim”, torna a rapariga, “e pode vir a ter dois pais ou duas mães”, conclui, como quem tira um coelho da cartola. A pequenita não apreendeu, contudo, o dramatismo intencional da tirada e ponderou, com sincera ingenuidade: “duas mães? …eu já tive uma, mas agora já não tenho porque ela foi para o céu… mas tenho duas primas.” E depois de mais uns instantes de reflexão, concluiu, na sua vozinha cristalina de uma mão mal cheia de anos: “eu cá não me importava nada de ter duas mamãs. Tu importavas-te, João?”

O João acaricia-lhe distraidamente o cabelo, os pensamentos a mil à hora, o corpo a tentar digerir um mundo de possibilidades ali entalado na garganta. “Isto é verdade, dona Alice?”, pergunta meio sem jeito, envergonhado por mostrar interesse no assunto. “Os gays vão poder adoptar crianças?»

A dona Alice olhou a plateia imprevisível à sua frente, respirou fundo e assentiu: “sim, é verdade.”

“E eles vão querer ficar com as crianças que os outros casais não querem?”, continuou o João, arriscando a despojar-se do seu habitual tom desprendido por um assunto tão caro para si. “E os gays vão poder escolher as suas crianças, como os outros casais, ou vão ter que aceitar aquela que o juiz lhes der?”

“Ó João, não se pode pôr as coisas nesses termos, filho”, corrigiu a dona Alice, “não se trata de um sorteio nem de uma obrigação, é claro que os casais gay também vão poder escolher a criança que querem”. 

O João respirou fundo, totalmente despido da película protectora de descaso com que se embrulhava mal abria os olhos todas as manhãs, arrebatado perante a ideia de que alguém pudesse escolhê-lo como filho - precisamente a ele, e declarou, indiferente aos olhares jocosos das miúdas mais crescidas: “pois então, se algum casal gay ME escolher, eu também vou de certeza querê-los a eles!”

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publicado às 22:54

João

por MC, em 07.02.16

O João, dez anos acabados de fazer, todos eles vividos em instituições, é o mais recente residente deste centro de acolhimento. A mãe, toxicodependente desde a adolescência, voltou grávida de uma viagem à boleia pelo norte da Europa e morreu poucas semanas depois do parto. Dela, nada se lembra: teve em tempos duas fotografias que o auxiliavam nos sonhos, mas que desapareceram algures entre as carruagens da vida. O pai, de quem herdou o cinzento marítimo do olhar e a aparente placidez dos gestos, ninguém sabe quem é. Todos os seus pertences, que debandam de poiso em poiso conforme as voltas do carrocel institucional, cabem num saco escuro e desbotado de desporto. Só há uma coisa que é cara ao João, como de resto, à maioria dos meninos institucionalizados: a possibilidade de ter uma família.

Desde que se lembra, o seu mundo foi sempre partilhado por muitas vozes, habitantes em camas pequeninas alinhadas ao lado da sua, pessoas a chegar e a partir, prestadores de serviços a cumprir as suas funções e a voltar para suas casas ao fim do dia, para os desvelos não remunerados às suas famílias, a transitoriedade da vida sempre a desfilar à sua volta, como numa imensa central de comboios.

O mais perto que esteve de uma família foi quando conheceu a D. Piedade, cozinheira do centro ia para mais de trinta anos. O João apaixonou-se irremediavelmente por aquele colo quentinho e almofadado, pelas mãos gorduchas e brandas que lhe revolteavam o cabelo e lhe davam pequenos petiscos na mansidão das tardes, quando os mais crescidos estavam na escola, pelo cantarolar constante que o apaziguava e adormecia, pela voz musical de avó perfeita que adivinhava nela – intuía, apenas, porque o João nunca tinha conhecido uma avó.

Quando a D. Piedade se aposentou e regressou à sua aldeia, o João minguou e emudeceu, morreu de desgosto uma e outra vez, morreu muito, todas as noites, sozinho na sua cama rodeada de gente, chorou a perda de algo que nunca fora dele.

Por duas vezes fugiu do centro, pegou nas tralhitas e lá foi, mundo fora, à procura da sua D. Piedade. Da primeira vez, pilharam-no logo ao fim de pouco tempo, ia a pé, na berma da autoestrada, saco encardido ao ombro, a caminho da felicidade. Na segunda, já mais sabido, não voltou a aproximar-se daquele local aziago, ficou a saber que não se pode andar a pé numa autoestrada, tudo bem, aprendia rápido as suas lições.

O segundo plano tinha pernas para andar: descobriu que havia uma estação de comboios que tinha o nome da aldeia que procurava e pôs-se em marcha. Caminhou pela linha do comboio durante dia e noite, peregrino incansável e insone, até ser visto por uns agricultores que estranharam o insólito e alertaram as autoridades. Quando o encontraram, tinha calcorreado mais de metade da centena de quilómetros que o separavam do sonho.

O senhor doutor juiz recusou-se a ver-lhe o engenho e só encontrou destempero e insensatez onde podia ter vislumbrado o amor; não foi em cantigas e logo ali o transferiu para o lado oposto do país.

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publicado às 17:03

Laços

por MC, em 03.12.15

 

Percorro o longo corredor ainda mergulhado na penumbra da alvorada chuvosa. Na sala de espera, algumas pessoas aguardam já em silêncio, apesar faltar quase uma hora para o início do expediente.

No gabinete, repito distraidamente os gestos de todos os dias: água a ferver na chaleira, a chávena em espera na beira do aparador, a revista breve da agenda, a organização mental das tarefas. Sobre a secretária, no espaço livre em frente à cadeira, repousa uma pasta que não estava lá no dia anterior. A sua presença, ali imposta com um certo descaramento exibicionista, como quem desrespeita uma fila, revela um afogadilho de urgência. Tem nome de mulher e é anafada (a pasta, não a mulher), tem as entranhas atafulhadas de folhas de vários tamanhos e cores, algumas já amarelecidas por outonos antigos.

 

Uma leitura rápida das primeiras páginas confirma o apressuramento da causa. Instintivamente, abeiro-me da sala de espera e profiro o nome que consta na pasta. Uma mulher levanta-se como uma mola, os braços magros cruzados sobre uma mala preta, diz “sou eu, sou eu” e entra pressurosa no gabinete. Atrás dela, como uma sombra, entra um rapaz também esguio, de andar desengonçado de adolescente.

 

Convido-os a sentar, a mulher oferece-me um sorriso grato e diz: “ainda bem que foi a senhora que me chamou, e não o outro senhor!” Ensaio um pedido de desculpa pela descortesia de não a reconhecer também, mas sou de imediato tranquilizada que não, não nos conhecemos, mas que ela fica muito mais serena “em falando com uma senhora”.

“Sabe”, continua ela depois de instalada, “é que eu tenho muita vergonha de falar no meu caso”, declara com uma vozinha sumida, enquanto acaricia a mão do rapaz sentado ao seu lado. O miúdo é esguio, mais alto que a mãe, todo ele braços e pernas a crescer num despropósito, os joelhos ossudos, a face angulosa e pálida, a tez infantil a começar a ser contrariada por um arremedo de barba penugenta a despontar. 

 

“Não tem de ter vergonha”, asseguro-lhe: “nenhuma pessoa deveria sentir vergonha por ter sido vítima de agressão”. O rapaz desliza lateralmente na cadeira para ficar praticamente colado a ela. Agora é ele que segura a mão dela. “Não é disso que tenho vergonha”, diz ela. “Envergonho-me de ter escolhido aquele homem para pai do meu filho, sabe? Fui eu que o aceitei. A culpa de tudo o que se tem passado é minha, sabe? Eu é que quis namorar com ele, eu é que fugi de casa para estar com ele, eu é que decidi ter um filho para ver se as coisas melhoravam, percebe? Eu é que sou responsável pela vida miserável deste menino, essa é que é a verdade”.  As lágrimas caem livremente e realçam-lhe as olheiras arroxeadas. O rapaz escuta-a, aflito, e segue as suas palavras com os olhos a transbordar de choro e meiguice.

 

Aceitam o chá que lhes ofereço. As canecas fumegantes ocupam-lhes as mãos e amparam-lhes o olhar. A mulher desenrola o seu novelo, conta pelos dedos as agressões que ambos sofreram, as estadias no hospital, as queixas na polícia, as agruras das audições, as comparências em tribunal, mostra as cicatrizes de um e outro, as mazelas nos ossos, os vestígios das feridas, a voragem do medo, o negrume da perpétua agonia a roer-lhes o espírito. Por duas vezes ganharam ânsias de fugir, foram ajudados, saíram silenciosamente, escondidos no negro da noite. Por duas vezes começaram de novo, longe, uma vida de pacatez e mansidão, sempre interrompida pelo terror de terem sido novamente encontrados.

 

Estão os dois encostados um ao outro, como siameses compactamente unidos. “Cá estamos mais uma vez a precisar ajuda”, remata a mulher, as lágrimas ainda a correr-lhe no rosto branco. Estão imóveis, os dois, o choro a exacerbar-lhes o cansaço. A certa altura, a mulher repara no rosto desfigurado do rapaz: os olhos vermelhos das lágrimas, o nariz, demasiado grande, vermelho e inchado, a humidade do ranho a descer-lhe para os lábios. Tira então da mala um gracioso e delicado lencinho e, segurando-o com elegância entre o polegar e o indicador, assoa o nariz do seu menino, num gesto carregado de infinita ternura e de um amor avassalador, tão real e tangível, claramente tão maior e mais forte do que a estúpida bestialidade que os persegue. 

 

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publicado às 18:44

E é isto

por MC, em 27.11.15

"Quando o ayatollah Khomeini ordenou que Salman Rushdie fosse assassinado por ter escrito um livro, a ordem foi recebida com alguma compreensão. O escritor John Le Carré disse: "Não creio que possamos ser impertinentes em relação às grandes religiões impunemente." O arcebispo da Cantuária acrescentou: "Compreendo bem a reacção dos devotos muçulmanos, feridos naquilo que consideram mais sagrado, e pelo qual estariam dispostos a morrer." Quando Theo van Gogh foi assassinado por ter realizado um filme, aconteceu mais ou menos o mesmo. Um jornalista inglês, por exemplo, escreveu que o realizador tinha "abusado do seu direito à liberdade de expressão". Quando a violência deflagrou em vários sítios do mundo e cerca de 200 pessoas perderam a vida porque um jornal dinamarquês publicou uns desenhos, houve mais reacções parecidas. O Vaticano emitiu um comunicado que dizia: "O direito à liberdade de expressão (...) não pode implicar o direito a ofender o sentimento religioso dos crentes." O governo inglês considerou que a publicação dos desenhos foi "desnecessária", "insensível", "desrespeitadora" e "errada". O ministro português Freitas do Amaral afirmou que os desenhos ofendiam "as crenças ou sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos" e acrescentou que a liberdade de expressão devia respeitar a liberdade de religião, concluindo: "liberdade sem limites não é liberdade, é licenciosidade". Quando vários cartunistas do Charlie Hebdo foram abatidos a tiro por terem desenhado uns bonecos, a culpa das vítimas voltou a ser referida. O Papa Francisco disse: "Não se pode provocar. Não se pode insultar a fé dos outros. Não se pode fazer troça da fé dos outros." Tony Barber, do Financial Times, escreveu: "seria útil que houvesse algum bom senso em publicações como o Charlie Hebdo (...) que reclamam estar a infligir um golpe pela liberdade quando provocam muçulmanos, mas estão apenas a ser estúpidos."

Esta semana, depois de mais de uma centena de pessoas ter sido assassinada por estar a ouvir música, a jantar num restaurante ou a ver um jogo de futebol, ainda ninguém veio chamar a atenção para o modo como o comportamento das vítimas ofendeu os fundamentalistas islâmicos. Permitam-me que seja o primeiro. A mesma sensibilidade com que algumas pessoas foram, ao longo do tempo, condenando certas provocações inaceitáveis aos assassinos, sempre tão susceptíveis, devia agora servir-lhes para detectar e repreender mais esta ofensa. Aquilo que as vítimas da passada sexta-feira estavam a fazer era tão afrontoso para os assassinos como escrever um livro, realizar um filme ou fazer um desenho: estavam a viver em liberdade. O comunicado no qual o estado islâmico reivindicou o atentado dizia que Paris tinha sido escolhida por ser "a capital do vício", que o Bataclan era um alvo por ser o sítio onde estavam reunidos "centenas de pagãos", que os terroristas tinham aberto fogo sobre "um ajuntamento de incréus" e que os ataques continuarão "enquanto continuarem a ofender o nosso profeta".

Felizmente, eu vivo num mundo em que temos a liberdade de nos ofendermos uns aos outros. Essa liberdade é fundamental, uma vez que as pessoas se ofendem com muitas coisas diferentes. Os bárbaros, por exemplo, ofendem-se primeiro com um livro, depois com um filme, depois com um desenho. E depois acabam por ofender-se com o facto de respirarmos. Talvez John Le Carré, Freitas do Amaral e o Papa considerem que devemos passar a respirar com mais respeito. Eu acho que isso é tão absurdo como escrever, filmar ou desenhar com o cuidado de não ferir a sensibilidade de assassinos".

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publicado às 21:25

Família

por MC, em 29.10.15

O lusco-fusco da tarde chuvosa ampliava as sombras no gabinete. A dor de cabeça, ferrada há um bom par de horas, toldava-lhe o raciocínio e desfocava as letras, fazendo-as bailar na folha branca à sua frente. Desistiu, afastando o documento com um gesto resignado e começou a arrumar os papéis. Um suave bater na porta interrompeu a enumeração mental das tarefas por concluir.

A rapariguita entreabriu a porta com embaraço e, com os olhos baixos, resmungou: “mandaram-me vir aqui”. Levantou o braço e acrescentou com brusquidão: “isto é para si”, entregando-lhe umas folhas amarfanhadas pela zanga e pela transpiração.  Aceitou, reticente, o convite para se sentar e permaneceu de olhos baixos e semblante cerrado. Nem mesmo para dizer o nome desamarrou a expressão, arremessando um “Natacha” seco e raivoso.

 “Ó Natacha, estou aqui a ler estas participações disciplinares e vejo que te portaste mal em várias aulas. Ora o ano lectivo começou há pouco e já aqui temos um belo molhinho de ocorrências.” A Natacha mirou impassível, com os olhos semicerrados e fez um esgar desdenhoso. “Pois é”, remordeu, abreviando o assunto. “Ao que leio aqui, foste mal-educada na sala de aula, disseste palavrões perante os professores e os colegas e hoje mesmo bateste numa aluna mais nova e ainda insultaste a funcionária que tentou impedir-te. Que me dizes a isto?”

Virou a cabeça com firmeza e apertou os lábios numa linha fina e azeda, mostrando o intuito claro de encerrar as conversações. “Bem, Natacha, já é muito tarde e estamos ambas cansadas, por isso vamos combinar uma hora para conversarmos amanhã, está bem?” E, perante a inutilidade de aguardar anuência, acrescentou de seguida: “amanhã, às quatro, quando acabares as aulas, vens aqui ter comigo ao gabinete. Vai-te lá embora.”

Mais tarde, já no supermercado, deu por si, desnorteada em frente ao expositor dos legumes, a mente ainda apossada de vidas em conflito, à procura de alívios que tardam, de caminhos que tenta abrir à força de teimosia. Sacode a cabeça inconscientemente para afastar os pensamentos e começa a ensacar os alimentos de que necessita.

Vozes alteradas arrancam-na às suas conjecturas. Uma mulher grita: “já te disse que não, parva de m*rda!” “Parva és tu! Nunca fazes nada do que eu te peço, és mesmo estúpida!”, responde-lhe um timbre acriançado. As pessoas imobilizam os gestos e entreolham-se com assombro. As vozes ecoam pelo supermercado, num registo cada vez mais estridente. “Ó filha da p*ta, sai-me da frente, qu’eu ainda cego e enfio-te a garrafa do azeite pelos cornos abaixo! Não me venhas práqui apoquentar, qu’ eu não tenho saúde, vai melgar a p*ta que te pariu!” Do corredor dos enlatados irrompe uma mulher alta e encorpada, seguida de perto por uma outra, mais franzina e muito mais jovem, que brada: “és tu, és tu! A p*ta que me pariu és tu!”

A mulher olha em volta e toma finalmente nota da plateia involuntária no corredor central. Queda-se por instantes, a ponderar se há-de também dizer duas ou três coisas àqueles basbaques. Por fim recua, consumida e impaciente, e vocifera: “olha, sabes que mais, minha estúpida? Vou-me embora e já não compro nada, que não estou para te aturar! Não há bolos, nem jantar, nem o c*r*lho!” E abalou determinada por ali fora, seguida de longe pela Natacha, queixosa e atarefada a refundir no bolso do blusão um pacote de bolachas meio comido. 

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publicado às 17:45

Círculos

por MC, em 15.10.15

Armou-se de uma energia que não sentia e puxou a porta da rua. A mola velha deu um guincho enferrujado que se sobrepôs, por instantes, ao matraquear pesado da chuva no vidro. Arrepiou-se com a ventania fria da madrugada e puxou para si o abraço do casaco velho de lã. Na rua vazia, o vento fazia girar papéis velhos e folhas caídas numa dança despropositada. Caminhou apressada em direcção à paragem de autocarro e sentou-se encolhida, ombros escudados no canto do cubículo, os pés molhados da chuva cuspida pelo vento.

Esfregou uma na outra as mãos maltratadas de unhas roídas e mirou-as como se as vislumbrasse pela primeira vez. Com o calor da fricção, o tom arroxeado da pele tornava-se, sob a luz esmorecida do candeeiro, num escarlate vivo que realçava a teia profusa de cicatrizes feias e brancas como fantasmas.

Lembrou-se do dia aziago em que, pequenita e franzina, entornara sobre si uma panela de sopa acabada de fazer, lembrou-se do muito que gritou, sozinha em casa, com os braços e as pernas a fervilhar de bolhas e dores insuportáveis, recordou-se de se ter arrastado até à porta da rua, com as roupas literalmente coladas a si, de os gritos se terem progressivamente transformado num choro sofrido e baixinho, das vozes dos vizinhos no patamar, do bombeiro alto e garboso como um príncipe que pegou nela como quem segura um tesouro e a levou para o alívio nebuloso do sono.  

Lembrou-se dos tantos e tantos dias de perpétua solidão que passou naquela casa, enquanto a mãe rodopiava no carrocel desnorteado da sua vida sentimental, cada uma delas presa em universos que pontualmente se interceptavam em segmentos momentâneos e fugazes. Reviu a convivência tantas vezes forçada e incompreendida com os amores da mãe, homens imoderados, coléricos, promíscuos, alguns gentis, nenhum constante, ninguém ficou.

Recordou todas as vezes em que, amargurada e infeliz, prometia a si própria que aquele não seria o seu caminho, que iria fazer da sua casa um lugar fagueiro e festivo, um casulo almofadado onde os seus amores pudessem aninhar-se e espreguiçar, agasalhados dos rigores do mundo para todo o sempre, ámen.

Evocou a imagem doce dos seus pequeninos, rechonchudos e macios, a dormir o sono dos justos. Amarfanhou-se-lhe o coração ao sabê-los sozinhos em plena madrugada, a aflição a martelar-lhe nos ouvidos, a culpa a calcar-lhe o peito, a necessidade a empurrá-la para a frente. São só algumas horas, não parou de repetir para si própria. Quando voltar das limpezas ainda eles estão a dormir, a vizinha Alzira está logo ali, os ouvidos de tísica atentos ao zoar de uma mosca. Todos os “nunca mais” tantas vezes juramentados com raiva e determinação orbitam maldosamente na sua cabeça.

Afasta-os com um gesto distraído do braço, à medida que sobe para o autocarro. O motorista sorri timidamente e deseja-lhe um bom dia claro e sincero. É bem-apessoado, limpo, as calças bem engomadas, um ar sério que lhe lembra o bombeiro-príncipe que a salvou e que para sempre morará no seu coração. Ofereceu-lhe de volta um sorriso triste e sentou-se lá atrás, os pés eternamente gelados, a solidão a ensopar-lhe os ossos.   

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publicado às 16:58

Disfunções

por MC, em 10.09.15

Não foi necessário levantar os olhos do relatório que afanosamente tentava terminar, nem mesmo consultar a agenda do dia, para compreender quem seria a primeira visita da manhã. A voz estridente e entaramelada a ecoar no corredor e os ruídos metálicos do andarilho a golpear a tijoleira anunciavam sem qualquer dúvida a chegada do António. A porta aberta de rompante, um “Bom dia! Bom dia! Bom dia!” vigoroso, o António a caminhar, abrupto e desarticulado, a mãe logo atrás, também atabalhoada, à força de querer ajudar, os braços carregados de coisas, num afã de amparar o filho.

Levanto-me para o abraçar, há beijinhos e risos pelo ar, uma labuta para acomodar o moço na cadeira ampla à minha frente, o andarilho despenca, arrasta consigo os haveres da mãe, a mala esparramada no chão, de dentro disparam chaves, moedas, lápis, telemóvel, um par de livros. Um deles, de capa cor-de-rosa com chamativas letras em relevo prateado, intitula-se ‘Quem Acredita sempre Alcança - O Poder da Superação’.

Evito olhá-lo uma segunda vez, engulo a irritação que me provoca, começamos a conversar sobre as férias. O António tenta extravasar o entusiasmo que o tema suscita e quer contar-me todas as coisas boas que lhe aconteceram nas últimas semanas, mas apenas consegue verbalizar curtos segmentos desarticulados e fanhosos, complementados com gestos abruptos, desengonçados, cheios de ímpetos que não consegue controlar. O olhar, errático e desirmanado, fita pontos diferentes na parede.

Com o António correu mal tudo o que havia para correr mal: a genética trouxe-lhe as patologias neurológicas e as malformações físicas, o parto traumático exacerbou-as e empossou-as de poderes intransponíveis, numa congeminação maléfica que o transformou numa marionete desconjuntada, onde as forças do universo despejaram, pérfidas, os seus humores pestilentos. Não contentes com tudo isto, as energias cósmicas deram-lhe ainda uma mãe que acredita com fervor que querer é inevitavelmente poder.

A mãe do António é uma mãe maravilhosa, é preciso que se note. O nome dela é Ana, mas há muitos anos que ela deixou de ser a Ana para ser a mãe do António. E é-o tão integral e plenamente que eu duvido que ainda haja espaço dentro de si para ser outra coisa que não a mãe do António. Todos os seus momentos, de todos os dias, de todos os anos, escorrem em função deste único filho, em quem ela deposita uma fé irracional, simultaneamente sublime e nefasta.

E não há maneira de a convencer que não, nem sempre querer é poder, que nem sempre conseguimos ultrapassar os obstáculos, por muita força de vontade que tenhamos, que não, nem sempre a perseverança resulta em sucesso. Não há conversa que não enverede pelo desenrolar dos planos que giza para o futuro do António, pelo enumerar das coisas fantásticas que ele vai poder concretizar, quando ficar melhorzinho – e ele vai ficar melhorzinho. Se se esforçar mais, se for mais perseverante, se for mais esforçado, menos preguiçoso. E o António a ouvir, embatucado, tristonho, a diminuir, esmagado pela fé inabalável da mãe.

Que não, digo-lhe amiúde, que ele não é preguiçoso, é muito esforçado e trabalhador, todos os técnicos, fisioterapeutas e professores o garantem, que se supera quotidianamente na luta contra as suas limitações, que mais não faz porque não lhe é humanamente possível.

Nada. Banhada pela luz artificial dos evangelhos cor-de-rosa de auto-ajuda e superação, tem sempre à mão um manancial de citações retumbantes com lições de vida. Envolta no néon ofuscante das suas expectativas, alvitra momentos futuros em que o António poderá fazer muito bem tudo o que os outros fazem, se assim o quiser. Aventa exemplos que promissoramente possam ser catalisadores da vontade do António: mostra-lhe cenários auspiciosos ao volante do seu automóvel, com a sua namorada, presenteia-o com sorrisos e abraços incentivadores.

O António, que não consegue enumerar de seguida os dias da semana, não tem coordenação motora para abotoar o casaco e é totalmente dependente de terceiros para a concretização de qualquer necessidade fisiológica, oferece-lhe um sorriso enternecedor e definha na cadeira, avassaladoramente abalroado pelo mistério da fé.


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publicado às 19:54


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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